Documento v2 da série LAPOP
LAPOP — Comunicação e radicalização democrática
A dieta de redes explica a radicalização? (Brasil 2023)
Testamos a tese "algoritmos polarizadores": cruzamos a dieta comunicacional (redes, info política, desinformação) com desfechos de radicalização democrática. Desenho com TRÊS grupos de voto 2022 — Lula, Bolsonaro e não-alinhados (3ª via + branco/nulo) como categoria de referência —, o que revela se a polarização é simétrica ou puxada por um lado.
Achados principais
A fratura eleitoral é assimétrica
Com três grupos de voto — e os não-alinhados (3ª via + branco/nulo) como referência — vê-se que a polarização não é simétrica em torno do centro.
| Indicador | Lula | Não-alinhados (ref.) | Bolsonaro |
|---|---|---|---|
| Contagem justa dos votos (COUNTFAIR1) | 73.2 | 64.6 | 41.9 |
| Confiança nas eleições (B47A) | 56.5 | 48.9 | 30.9 |
| Confiança na mídia (B37) | 60.8 | 54.7 | 49.3 |
Decomposição vs. o centro engajado
Regressão com não-alinhados como referência + controles (idade, gênero, escolaridade, evangélico, urbano).
| Desfecho | Votou Lula | Votou Bolsonaro |
|---|---|---|
| COUNTFAIR1 | +9,4 (p=0,035) | −25,5 (p<0,001) |
| B47A | +11,0 (p=0,012) | −18,2 (p<0,001) |
| Confiança na mídia | +6,2 (p=0,07) | −3,7 (ns) |
Relativo ao centro, eleitores de Bolsonaro estão 2,5–3× mais distantes (desconfiança −25/−18) do que os de Lula estão acima (+9/+11). A polarização eleitoral é, em sua maior parte, desconfiança de um lado só — não um afastamento simétrico. O contraste binário escondia isso.
Sensibilidade: incluindo os ~450 "não declararam" na referência (N=1.458), o padrão se mantém — Lula +13,1 / Bolsonaro −20,5 (ambos p<0,001).
Desconfiança eleitoral NÃO é explicada pela dieta de redes
WLS (pesos wt, HC1), três grupos de voto. Desfecho 0–100 (maior = mais confiança).
| Preditor | COUNTFAIR1 (β) | B47A (β) |
|---|---|---|
| Viu desinformação (SMEDIA11) | −3,6 (ns) | −2,3 (ns) |
| Info política diária em redes | +4,0 (ns) | −0,0 (ns) |
| Tem redes sociais | +32,7 (p<0,001) | +19,8 (p<0,001) |
| Verificou informação | +0,2 (ns) | +5,2 (p=0,07) |
N = 812 / 829 · R² = 0,20 / 0,16
Ver desinformação é nulo depois de conhecer o voto. Ter rede associa-se a muito mais confiança eleitoral (+33) — os não-usuários são os mais desconfiados. O motor é o voto/identidade, que sobrevive a toda a dieta de mídia e à demografia.
Ressalva de robustez: o efeito de desinformação é nulo CONDICIONAL ao voto, mas não em termos brutos — na amostra cheia (sem o grupo de voto) ver desinformação vale −8,5 pts em COUNTFAIR1 (p=0,006). Exposição e voto estão entrelaçados; o partidarismo absorve o efeito.
O que a dieta de redes erode é a confiança na MÍDIA, não na eleição
Confiança na mídia (B37, 0–100; ref. = não-alinhados)
Verde = significativo (p < 0,05) · cinza = não significativo.
O único item de dieta que erode confiança institucional é o consumo intenso de info política em redes — e o alvo é a mídia (−6,1), não a eleição. Ter rede associa-se a +33.
Justificar golpe/ruptura — fortemente polarizado por voto
Itens split-sample (~46% da amostra; n≈190–265 por grupo — o grupo não-alinhado fica pequeno demais, então só Lula × Bolsonaro).
| Indicador | Lula 22 | Bolsonaro 22 |
|---|---|---|
| Golpe diante de muita corrupção (JC13) | 12.6 % | 45.3 % |
| Presidente fechar o Congresso (JC15A) | 17 % | 21.9 % |
| Presidente dissolver o STF (JC16A) | 28.4 % | 37.5 % |
Eleitores de Bolsonaro são 3,6× mais propensos a justificar um golpe diante de corrupção (45% vs 13%). Patamar geral alto para dissolver o STF (28–38% nos dois campos).
Síntese
- A polarização da legitimidade eleitoral é ASSIMÉTRICA: relativo ao centro engajado, é sobretudo a desconfiança bolsonarista (−25), não um afastamento simétrico dos dois polos.
- Para a mídia o padrão se inverte: eleitores de Lula são mais confiantes que o centro; os de Bolsonaro não diferem dele após controles.
- A radicalização NÃO é explicada pela dieta de redes: ter rede associa-se a mais confiança; só o consumo intenso de info política em redes erode (e só a confiança na mídia).
- O motor é a identidade partidária (winner-loser gap), robusto a todos os controles. Desenho transversal, sem dado de exposição algorítmica real.
Dados: LAPOP/AmericasBarometer Brasil 2023. Valores ponderados (peso wt). Desenho transversal —
associação, não causa. Fonte completa: docs/LAPOP_COMUNICACAO_RADICALIZACAO.md.