Vanderbilt University (LAPOP Lab)
LAPOP / AmericasBarometer — Brasil
Redes sociais, ideologia e polarização
O LAPOP não inclui termômetro de sentimentos (0–10), instrumento padrão para polarização afetiva. Mede identidade (VB10/VB11) e ideologia (L1), não afeto. Para polarização afetiva é necessário o ESEB.
Ondas baixadas: 2017, 2019, 2021, 2023. Ondas usáveis: 2019 e 2023 (únicas com SMEDIA + L1 simultaneamente).
Achados principais
Distribuição ideológica (escala L1) 2017 → 2023
A distribuição não é bimodal, mas deslocou-se à direita e ficou mais dispersa: as pontas cresceram de 34% para 42% e o centro caiu de 45% para 38%.
Média e dispersão da escala (0–10)
Engajamento digital: campo petista vs. bolsonarista
Em 2019, o PSL era muito mais engajado digitalmente que o PT. Em 2023 a vantagem do PL persiste, porém menor.
2019 — PT vs. PSL (identificação partidária)
| Indicador | PT (n=126) | PSL (n=55) | Sem partido (n=1.141) |
|---|---|---|---|
| Tem Facebook | 57.4 % | 87.4 % | 60.5 % |
| Info pol. diária no Facebook | 42.2 % | 73.1 % | 31.4 % |
| Tem WhatsApp | 66.8 % | 90.1 % | 78.5 % |
| Info pol. diária no WhatsApp | 39.1 % | 51.2 % | 20.6 % |
| Interesse "muito" | 40 % | 62.5 % | 10.4 % |
2023 — PT vs. PL (identificação partidária)
| Indicador | PT (n=190) | PL (n=64) | Sem partido (n=1.173) |
|---|---|---|---|
| Tem redes sociais | 82.4 % | 87.1 % | 77.7 % |
| Info pol. diária | 52.5 % | 60.5 % | 36.6 % |
| Várias vezes/dia | 45.7 % | 64.3 % | 51.3 % |
| Viu desinformação | 72.2 % | 72.1 % | 67.6 % |
| Verificou informação | 62.9 % | 71.4 % | 47.6 % |
| Letramento digital "muito" | 48.2 % | 65.5 % | 44.8 % |
2023 — por voto no 1º turno de 2022 (base ampla)
| Indicador | Votou Lula (n=541) | Votou Bolsonaro (n=405) |
|---|---|---|
| Tem redes sociais | 78.6 % | 85.4 % |
| Info pol. diária | 44.7 % | 46.1 % |
| Viu desinformação | 64.3 % | 73.9 % |
| Verificou informação | 49.9 % | 57.9 % |
| Letramento digital "muito" | 40.9 % | 52.9 % |
Redes sociais aumentam o extremismo? Não.
Extremismo ideológico |L1 − 5,5| (0 = centro, 4,5 = extremo)
WLS (pesos wt), erros robustos HC1, pooled 2019+2023 (N ≈ 2.080) · R² = 3–7%
Verde = significativo (p < 0,05) · cinza = não significativo. β < 0 reduz extremismo.
| Variável | β (pooled) | Significância |
|---|---|---|
| Tem rede social | -0,22 | p = 0,03 |
| Info pol. diária | +0,12 | ns |
| Evangélico | +0,34 | p < 0,001 |
| Interesse político | +0,13 | p < 0,001 |
| Idade (por ano) | +0,01 | p < 0,001 |
| Escolaridade (por ano) | -0,03 | p = 0,02 |
| Freq. notícias | -0,08 | p = 0,02 |
Assimetria esquerda vs. direita
Mesmos modelos separando L1≤5 (esq/centro-esq) e L1≥6 (dir/centro-dir), pooled.
| Variável | Esquerda (β) | Direita (β) |
|---|---|---|
| Tem rede social | −0,25 (ns) | −0,28 (p=0,03) |
| Info pol. diária | +0,23 (p=0,09) | +0,11 (ns) |
| Evangélico | +0,16 (ns) | +0,41 (p<0,001) |
| Freq. notícias | −0,03 (ns) | −0,13 (p=0,002) |
| Interesse político | +0,14 (p=0,02) | +0,07 (ns) |
| Escolaridade | −0,04 (p=0,03) | −0,02 (ns) |
Evangélicos só aumentam extremismo na direita (+0,41). Ter rede social modera extremismo na direita (−0,28), sem efeito na esquerda.
Polarização democrática (sem termômetro afetivo)
Como o LAPOP não tem termômetro de sentimentos, medimos a polarização de NORMAS democráticas entre eleitores de Lula e Bolsonaro (voto 2022). As três dimensões polarizam de modos muito diferentes.
Tolerância política — NÃO polariza
| Indicador | Lula 22 | Bolsonaro 22 |
|---|---|---|
| Tolerância política (D3+D4: críticos do governo) | 46.1 % | 47.4 % |
| Manifestações legais (E5) | 60.5 % | 65.6 % |
| Candidatura LGBT (D5) | 72.7 % | 64.6 % |
Gap Lula−Bolsonaro: ~1 ponto. ~30% dos dois campos acham que críticos do regime não deveriam se candidatar/falar na TV. A clivagem real está no eixo moral/minorias (LGBT, +8,2 a favor de Lula), não no dissenso político.
Anti-pluralismo (POP101) — polariza, mas é endógeno à incumbência
| Indicador | Lula 22 | Bolsonaro 22 |
|---|---|---|
| Apoio a limitar a oposição (média 0–100) | 49.4 % | 39.7 % |
| % apoia (5–7) | 40.8 % | 30.6 % |
Gap Lula−Bolsonaro: +9,7 (p < 0,001). Por voto, eleitores de Lula são mais anti-pluralistas; por ideologia, a direita (49,9 vs 43,0). Efeito de incumbência: em 2023 "limitar a oposição" = limitar o campo bolsonarista. 36% do eleitorado aceita limitar a oposição.
Legitimidade eleitoral — o eixo que MAIS polariza
| Indicador | Lula 22 | Bolsonaro 22 |
|---|---|---|
| Contagem justa dos votos (COUNTFAIR1) | 73.2 % | 41.9 % |
| % acha que votos "nunca" são justos | 12.3 % | 34.4 % |
| Confiança nas eleições (B47A) | 56.5 % | 30.9 % |
| % confia (5–7) | 52.9 % | 22.5 % |
Gaps Lula−Bolsonaro: +31,4 (COUNTFAIR1) / +25,6 (B47A), ambos p < 0,001. Por ideologia o gap cai para ~9 pts: o corte vencedor/perdedor de 2022 é ~3× maior que o ideológico (winner-loser gap). 34% dos eleitores de Bolsonaro acham que os votos nunca são contados de forma justa — o "stop the steal" brasileiro.
As três dimensões polarizam de modos diferentes
| Dimensão | Gap Lula−Bolsonaro | Natureza |
|---|---|---|
| Tolerância política (D3/D4) | ~1 | Consensual — não polariza |
| Anti-pluralismo (POP101) | ~10 | Polariza, mas endógeno à incumbência |
| Legitimidade eleitoral | +26 a +31 | Polariza forte — winner/loser gap |
A polarização democrática pós-2022 não está na (in)tolerância ao dissenso — consensualmente baixa — nem em valores autoritários estáveis, mas na percepção da integridade da eleição. É a fratura que mais separa os campos, muito além da ideologia, e conecta direto ao eixo de desinformação/redes.
Síntese
- Redes sociais NÃO aumentam o extremismo ideológico — a associação é negativa e significativa.
- O único efeito sobre direção ideológica aparece entre eleitores de Bolsonaro (info diária em redes → mais à direita), mas a direção causal é desconhecida.
- A escala esquerda-direita (L1) tem baixo poder discriminante no Brasil, sobretudo entre menor escolaridade ("petista de direita").
- O campo bolsonarista (PSL→PL) mantém vantagem em engajamento digital, mas a diferença caiu de 31 pp (2019) para 8 pp (2023).
- Ser evangélico é o preditor mais forte de extremismo — e só opera na direita.
Fontes: Fuks & Marques (2023); Ortellado, Ribeiro & Zeine (2022); Bello (2023). Dados: LAPOP/AmericasBarometer Brasil. Valores ponderados (peso wt).