Vanderbilt University (LAPOP Lab)

LAPOP / AmericasBarometer — Brasil

Redes sociais, ideologia e polarização

⚠️ O que o LAPOP mede (e o que não mede)

O LAPOP não inclui termômetro de sentimentos (0–10), instrumento padrão para polarização afetiva. Mede identidade (VB10/VB11) e ideologia (L1), não afeto. Para polarização afetiva é necessário o ESEB.

Ondas baixadas: 2017, 2019, 2021, 2023. Ondas usáveis: 2019 e 2023 (únicas com SMEDIA + L1 simultaneamente).

Achados principais

+31 pts
A fratura é a eleição, não a ideologia
Eleitores de Lula e Bolsonaro divergem 31 pts na percepção de contagem justa dos votos (winner/loser gap) — 3× o gap ideológico. 34% dos eleitores de Bolsonaro acham que os votos "nunca" são justos.
β = −0,22
Redes sociais → menos extremismo
Ter rede social associa-se a MENOS extremismo ideológico (p = 0,03, pooled 2019+2023).
+0,76
Efeito de direção só na direita
Entre eleitores de Bolsonaro, info política diária em redes → +0,76 à direita na escala L1 (p = 0,03). Nenhum efeito entre eleitores de Lula.
34,6%
O "petista de direita"
Dos eleitores de Lula em 2022, 34,6% se posicionam na direita (7–10) — baixa validade da escala L1.
34% → 42%
Pontas crescendo
% nas pontas ideológicas (1–2, 9–10) subiu de 2017 a 2023; centro caiu de 45% para 38%.

Distribuição ideológica (escala L1) 2017 → 2023

A distribuição não é bimodal, mas deslocou-se à direita e ficou mais dispersa: as pontas cresceram de 34% para 42% e o centro caiu de 45% para 38%.

Média e dispersão da escala (0–10)

Engajamento digital: campo petista vs. bolsonarista

Em 2019, o PSL era muito mais engajado digitalmente que o PT. Em 2023 a vantagem do PL persiste, porém menor.

2019 — PT vs. PSL (identificação partidária)

Indicador PT (n=126)PSL (n=55)Sem partido (n=1.141)
Tem Facebook 57.4 % 87.4 % 60.5 %
Info pol. diária no Facebook 42.2 % 73.1 % 31.4 %
Tem WhatsApp 66.8 % 90.1 % 78.5 %
Info pol. diária no WhatsApp 39.1 % 51.2 % 20.6 %
Interesse "muito" 40 % 62.5 % 10.4 %

2023 — PT vs. PL (identificação partidária)

Indicador PT (n=190)PL (n=64)Sem partido (n=1.173)
Tem redes sociais 82.4 % 87.1 % 77.7 %
Info pol. diária 52.5 % 60.5 % 36.6 %
Várias vezes/dia 45.7 % 64.3 % 51.3 %
Viu desinformação 72.2 % 72.1 % 67.6 %
Verificou informação 62.9 % 71.4 % 47.6 %
Letramento digital "muito" 48.2 % 65.5 % 44.8 %

2023 — por voto no 1º turno de 2022 (base ampla)

Indicador Votou Lula (n=541)Votou Bolsonaro (n=405)
Tem redes sociais 78.6 % 85.4 %
Info pol. diária 44.7 % 46.1 %
Viu desinformação 64.3 % 73.9 %
Verificou informação 49.9 % 57.9 %
Letramento digital "muito" 40.9 % 52.9 %

Redes sociais aumentam o extremismo? Não.

Extremismo ideológico |L1 − 5,5| (0 = centro, 4,5 = extremo)

WLS (pesos wt), erros robustos HC1, pooled 2019+2023 (N ≈ 2.080) · R² = 3–7%

Verde = significativo (p < 0,05) · cinza = não significativo. β < 0 reduz extremismo.

Variávelβ (pooled)Significância
Tem rede social -0,22 p = 0,03
Info pol. diária +0,12 ns
Evangélico +0,34 p < 0,001
Interesse político +0,13 p < 0,001
Idade (por ano) +0,01 p < 0,001
Escolaridade (por ano) -0,03 p = 0,02
Freq. notícias -0,08 p = 0,02

Assimetria esquerda vs. direita

Mesmos modelos separando L1≤5 (esq/centro-esq) e L1≥6 (dir/centro-dir), pooled.

VariávelEsquerda (β)Direita (β)
Tem rede social−0,25 (ns)−0,28 (p=0,03)
Info pol. diária+0,23 (p=0,09)+0,11 (ns)
Evangélico+0,16 (ns)+0,41 (p<0,001)
Freq. notícias−0,03 (ns)−0,13 (p=0,002)
Interesse político+0,14 (p=0,02)+0,07 (ns)
Escolaridade−0,04 (p=0,03)−0,02 (ns)

Evangélicos só aumentam extremismo na direita (+0,41). Ter rede social modera extremismo na direita (−0,28), sem efeito na esquerda.

Polarização democrática (sem termômetro afetivo)

Como o LAPOP não tem termômetro de sentimentos, medimos a polarização de NORMAS democráticas entre eleitores de Lula e Bolsonaro (voto 2022). As três dimensões polarizam de modos muito diferentes.

Tolerância política — NÃO polariza

Indicador Lula 22Bolsonaro 22
Tolerância política (D3+D4: críticos do governo) 46.1 % 47.4 %
Manifestações legais (E5) 60.5 % 65.6 %
Candidatura LGBT (D5) 72.7 % 64.6 %

Gap Lula−Bolsonaro: ~1 ponto. ~30% dos dois campos acham que críticos do regime não deveriam se candidatar/falar na TV. A clivagem real está no eixo moral/minorias (LGBT, +8,2 a favor de Lula), não no dissenso político.

Anti-pluralismo (POP101) — polariza, mas é endógeno à incumbência

Indicador Lula 22Bolsonaro 22
Apoio a limitar a oposição (média 0–100) 49.4 % 39.7 %
% apoia (5–7) 40.8 % 30.6 %

Gap Lula−Bolsonaro: +9,7 (p < 0,001). Por voto, eleitores de Lula são mais anti-pluralistas; por ideologia, a direita (49,9 vs 43,0). Efeito de incumbência: em 2023 "limitar a oposição" = limitar o campo bolsonarista. 36% do eleitorado aceita limitar a oposição.

Legitimidade eleitoral — o eixo que MAIS polariza

Indicador Lula 22Bolsonaro 22
Contagem justa dos votos (COUNTFAIR1) 73.2 % 41.9 %
% acha que votos "nunca" são justos 12.3 % 34.4 %
Confiança nas eleições (B47A) 56.5 % 30.9 %
% confia (5–7) 52.9 % 22.5 %

Gaps Lula−Bolsonaro: +31,4 (COUNTFAIR1) / +25,6 (B47A), ambos p < 0,001. Por ideologia o gap cai para ~9 pts: o corte vencedor/perdedor de 2022 é ~3× maior que o ideológico (winner-loser gap). 34% dos eleitores de Bolsonaro acham que os votos nunca são contados de forma justa — o "stop the steal" brasileiro.

As três dimensões polarizam de modos diferentes

DimensãoGap Lula−BolsonaroNatureza
Tolerância política (D3/D4)~1Consensual — não polariza
Anti-pluralismo (POP101)~10Polariza, mas endógeno à incumbência
Legitimidade eleitoral+26 a +31Polariza forte — winner/loser gap

A polarização democrática pós-2022 não está na (in)tolerância ao dissenso — consensualmente baixa — nem em valores autoritários estáveis, mas na percepção da integridade da eleição. É a fratura que mais separa os campos, muito além da ideologia, e conecta direto ao eixo de desinformação/redes.

Síntese

Fontes: Fuks & Marques (2023); Ortellado, Ribeiro & Zeine (2022); Bello (2023). Dados: LAPOP/AmericasBarometer Brasil. Valores ponderados (peso wt).